Não ouço mais música, todos os discos foram escutados em sua presença, nas nossas noites e também ao acordar, a casa sempre sonorizada, você não gostava de silêncios, nunca estive com você sem que houvesse música e isso agora me intriga: por que o silêncio te incomodava tanto? Nas nossas viagens, música, música, muita música, e quando a estrada era longa às vezes eu cansava do barulho, diminuía o volume ou desligava o som e você reagia, e eu sigo desligando, interrompendo as músicas que ouvíamos na sala, no carro, pois cada verso, cada letra, é de mim que falam, da sua ausência, da minha dor, do seu novo amor. Quem é ela, tão mais linda e jovem que eu, tão mais nova em sua vida, tão feliz com a sua chegada, tão cheirosa pra você, como você consegue dizer pra ela o que me dizia semana passada, você já disse que a ama? Você levou quatro meses para me dizer e nunca mais parou, você era perdulário com as palavras, não havia um único dia em que eu não escutasse de você o quanto me amava, dizia no meu ouvido ou através de bilhetes, te amo, te amo, como é que você fez para incinerar todo esse amor em tão pouco tempo, onde o escondeu, em algum guarda-volume de rodoviária, enterrou em algum matagal, como é que seu amor foi desaparecer sem deixar pista, rastro, feito um crime perfeito? A primeira vez que eu disse que te amava foi depois de uma transa, uma das nossas primeiras, e eu me surpreendi com o que havia dito, porque ao contrário de você, sou econômica nas declarações, mas as palavras saíram de mim como num gozo, sem controle, eu mal te conhecia e de dentro de mim saiu aquele te amo com uma voz que era a minha, porém num tom mais leve e de uma sinceridade que me comoveu, te amo, e também nunca mais parei, e nunca vou parar, te amo e quero te matar, queria que você evaporasse, onde é que eu te incinero, te escondo, te enterro, me conta onde fica esse esconderijo secreto, o mesmo onde você sumiu com todos os eu te amo que me disse.

Martha Medeiros

"Culpado de metáforas tuas: Te dizer do que me encanta, de quando meus olhos desencadeiam a sensação do fundo abismo que é, de te tocar como chama que queima a superfície e deslumbra a alma. Eu me arrisco em ais de palavras e gestos, em poucas metáforas e hipérboles que nunca peço e tenho a certeza do sentir. Te dou o suspiro sincero, de me ver jogado a esmo, ainda assim te encontrar nos braços do acaso. Sorrio como um menino aprendiz do sorriso. Sem o jeito do homem, da idade e do cansaço engolido pelo tempo. Te relaciono ao relógio e pingo minhas lágrimas em teu peito. Jogo o olhar ao céu, e sou cegado pelas estrelas. Você está em tudo em que alcanço com os olhos e até por trás deles, e o que escorrem deles, e o que os cegam, o que o destino os revela. Feito foto polaroide, tirada ao nada, de riscos tolos, de rachaduras e choros que marcam a carne. As feridas viram marcas, amor, e o que nos resta é amá-las como parte nossa. Amo tuas cicatrizes como se estivessem em mim, e estão. São acusações feitas pelo tempo. Feito o teu nome que rouba meus olhos em horas mais impróprias, o teu ar que rouba o pouco sono que tenho, tuas palavras que tomam o ar da boca antes de entrar na garganta. Te digo do que me encanta, enquanto minhas olheiras são feitas na carne, e teus lábios as tocam e ultrapassam o simples toque de pele. Te entrego o que não me é carne, sem o medo do desajuste e da instabilidade de sanidade. Deixo ser insano, deixo ser você no pouco que sou eu, nos toques de acordes tocados por minhas mãos calejadas, e partituras lidas com os olhos cansados. Ainda assim, o sorriso é o que fica. Na música triste, no encolher das pernas e abraços dos braços pelo entorno das canelas. O choro é pela saudade, por você."